terça-feira, 30 de junho de 2015

Coisa de gente grande.

Era uma parabólica. A sombra que refletia na janela do meu quarto, todas as noites. Não era um disco voador, não era moinhos, trilhas mirabolantes, nem uma guerra com soldados de verdade, não era nada, era só a parabólica. E eu demorei tanto a perceber.

Quando o dia se pôs, olhei o sol batendo no meu rosto, era de um clima bom. Eu podia ver as nuvens tão brancas, lucidas e fofas que mais davam a impressão de serem pedaços de algodão. Era uma sensação extremamente boa. A petulância do lençol enrolado ao meu corpo, afagava meus sonhos, em que eu tivera aquela noite. Impressionante, apenas, sentir o sábado me revestindo de uma tal forma sem medida.

Então, coloquei meus pés no chão. O chão era de extrema frieza, que logo me veio o arrepio. Eu ri ao ver os cabelos dos meus braços se assanhando como um gato assustado. Calcei-me o chinelo de cor vermelha e correias douradas, e resolvi por fim levantar-me. Segui ao rumo do banheiro para que minha rotina começasse logo dali.

Ao me ver no espelho, pude notar o quanto eu já havia mudado ate então. Meu rosto, havia ganhado linhas de expressões perto da boca, que se realçavam com mais nitidez quando eu sorria. Meu nariz havia afinado e minha boca havia ganhado um contorno natural. Eu já havia ganhado traços de "gente grande". Seria tão melhor, se apenas meu rosto e meu corpo tivessem mudado, mas minha vida, tivesse continuado a mesma, aos cuidados e responsabilidades de meus pais, sem tantas preocupações, a não ser de arrumar meu quarto em cinco minutos antes que minha mãe chegasse e me desse uma bela de uma bronca.

Muitas coisas havia perdido a graça com o passar dos anos, por exemplo, o dia do meu aniversário. O que antes era uma data de extrema importância pra mim, para ganhar aquele brinquedo tão desejado. Hoje é somente mais um dia qualquer de um agosto qualquer, no qual irei levantar-me, e ter que continuar minhas obrigações de "gente grande". Banco, boletos, dividas, cartões bancários, faculdade e.. Problemas!

As vezes, o que eu queria mesmo era voltar a ser criança, e andar no banco de trás do carro, observando as pessoas passando pelas ruas, sempre com muita pressa, sempre muito serias. E eu nem imaginava, que eu me tornaria mais uma daquelas. Que eu me tornaria apenas mais um numero de Cpf.

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